São Paulo, quinta, 18 de dezembro de 1997.
Fokker não dispensou treino de reverso
Carta da fábrica à TAM, em 95, não reafirma nem rejeita necessidade de simular falha que causou acidente em 96
ROGERIO SCHLEGEL
da Reportagem Local
A Fokker não dispensou, por carta, treinamento específico para a abertura do reverso, ao contrário do que sempre sustentou a TAM. Foi a companhia aérea que interpretou uma comunicação da fabricante como ponto final para a discussão sobre o assunto.
Defeito no reverso e falha na reação da tripulação foram decisivos para a queda do Fokker-100 que matou 99 pessoas em 96. No relatório sobre o acidente, divulgado na semana passada, a Aeronáutica endossou a versão da TAM.
Ontem, a empresa afirmou que, pelo contexto, a carta encerrava a discussão (leia texto abaixo).
A TAM sempre alegou que, após consulta, recebeu carta da Fokker, datada de 28 de junho de 1995, dispensando esse treinamento. Carta obtida pela Folha com essa data versa sobre problemas no reverso, mas em nenhum trecho descarta o treinamento - não afirma que é necessário nem que é dispensável.
Mais: a TAM sustenta que a correspondência dizia que a abertura do reverso em vôo era impossível. Na realidade, a carta da Fokker diz que essa abertura ''não é possível'' em uma hipótese específica: quando o piloto a comanda em vôo sem querer - existe uma chave que impede a abertura não intencional.
Na decolagem, a carta diz que uma abertura indevida do reverso ''não deve ocorrer'' enquanto a velocidade estiver abaixo de 200 nós (360 km/h).
No manual do avião, a chance de abertura do reverso é descrita pela fabricante como muito remota (''very remote'', na versão em inglês) e não é descartada. O treinamento previsto pela Fokker até hoje não prevê simulação do defeito.
Rolim culpou Fokker
O treinamento do reverso foi pedido pelos próprios pilotos da TAM, em 1995. Muitos deles voaram aviões da Boeing - que, no treinamento, simula a abertura indevida do reverso - antes de pilotarem os Fokker-100.
Em entrevista à revista ''Veja'', publicada em 5 de março deste ano, o comandante Rolim Amaro, dono da TAM, confirmou o pedido da equipe de vôo e acrescentou: ''Decidimos consultar a Fokker para saber se era necessário (simular a abertura do reverso no treinamento) e ela nos respondeu oficialmente que não''.
Na síntese do relatório que divulgou, a Aeronáutica afirma que a reação à abertura do reverso não havia sido treinada ''em virtude de uma correspondência do fabricante da aeronave'' enviada à TAM.
O Sindicato Nacional dos Aeronautas questionou a investigação da Aeronáutica por ela não ter se aprofundado na origem da falta de treinamento que contribuiu para o acidente.
Comentário: do lado da TAM apenas inverdades...




