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A HISTÓRIA REAL DO ACIDENTE COM

 O FOKKER 100 DA TAM EM 1996

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São Paulo, sexta, 12 de dezembro de 1997.

VÔO 402

Quatro recomendações dizem respeito ao treinamento da tripulação, embora Aeronáutica não tenha apontado erro na atuação

Laudo isenta TAM, mas exige mudanças

RODRIGO VERGARA
enviado especial a Brasília

O relatório final sobre a queda do Fokker-100 da TAM em São Paulo, em 31 de outubro do ano passado, que matou 99 pessoas, foi apresentado ontem em Brasília. A Aeronáutica concluiu que não houve falha da empresa no acidente.

O laudo traz oito recomendações à TAM. Na linguagem aeronáutica, recomendações significam providências que a empresa deve tomar para corrigir irregularidades detectadas nas investigações.

''Não existem falhas da empresa que tenham contribuído, diretamente ou indiretamente para o acidente'', disse o coronel Douglas Ferreira Machado, chefe do Centro de Investigação e Prevenção de Acidentes Aeronáuticos.

Ao todo, o relatório traz 48 recomendações, endereçadas a diversas partes envolvidas na investigação, como órgãos da própria Aeronáutica, fabricantes de peças e à própria Fokker (leia abaixo).

Treinamento

Metade (quatro) das recomendações feitas à TAM exige melhoria no treinamento da tripulação. Em dois casos, a exigência é que a empresa enfatize aspectos do treinamento já exigidos.

O laudo diz, por exemplo, que a TAM ''deverá, nos treinamentos, (...) enfatizar a importância da não-tomada de ação abaixo dos 400 pés''. O texto se refere à legislação aérea brasileira, que prevê que, quando houver uma anormalidade na aeronave na decolagem, a tripulação não deve tomar nenhuma ação antes que o avião chegue a 400 pés (cerca de cem metros).

No acidente, os tripulantes tomaram atitudes antes de o Fokker chegar a essa altura, o que contribuiu para desestabilizar o avião.

O chefe do Cenipa, no entanto, não vê falha da tripulação. ''Houve tomada de ação, mas não foi identificada como iniciativa errada do piloto'', disse Machado.

A Aeronáutica pede ainda reforço no treinamento de CRM (cockpit resource management, ou gerenciamento de recursos de cabine), cujo objetivo é preparar piloto e co-piloto para dividir funções em situações de pane.

No acidente, alguns procedimentos básicos de decolagem que ajudam a aeronave a ganhar altura, como recolhimento de trem de pouso, não foram tomados.

Registro de panes

Outras duas recomendações dizem respeito ao registro de panes no livro de bordo que cada avião deve ter. Uma cópia desse registro deve ficar em terra a cada pouso.

Sobre isso, a Aeronáutica exige da TAM que seja alterado o livro de bordo para ''melhorar os registros das panes, de modo que cada folha seja destacada a cada trânsito (pouso e decolagem), ficando uma cópia na base que executou o retorno da aeronave ao vôo''.

A exigência se deve ao fato de que a Aeronáutica não encontrou, no aeroporto de Congonhas, o registro de panes do Fokker-100 acidentado, que indicaria eventuais problemas preexistentes.


São Paulo, sexta, 12 de dezembro de 1997.

Se isoladas, causas não teriam provocado acidente

do enviado especial

Foram oito os fatores que contribuíram para a queda do Fokker-100 da TAM em São Paulo. Nenhum deles, no entanto, se ocorresse isoladamente, causaria a tragédia, segundo o chefe do Cenipa, Douglas Machado. ''Não houve fator preponderante'', disse.

O relatório não aponta culpados nem distribui responsabilidades.

Citando um tratado internacional assinado pelo Brasil, a Aeronáutica afirma que suas investigações têm o objetivo de apontar as falhas para evitar que elas se repitam.
O documento confirma a tese de que o que desestabilizou o avião foi a abertura do reverso da turbina direita durante a decolagem. O reverso é um tipo de marcha à ré da turbina, usado como freio auxiliar em pousos.

O reverso abriu e fechou três vezes durante a decolagem, desestabilizando a aeronave. No relatório divulgado ontem, a Aeronáutica detectou diversas falhas que provocaram a abertura do equipamento e outras em dispositivos que poderiam ter contornado o problema.

Relé

A pane teve início muito antes da decolagem que culminou com a queda do avião. A trava do reverso, que deveria evitar sua abertura, estava desativada (falha 1) desde o pouso anterior.

A situação não pôde ser vistoriada pela equipe que faz manutenção nas aeronaves da TAM a cada pouso e decolagem, porque a posição da trava não permite vistorias pelo lado de fora do avião (falha 2).

Sem a trava, bastou que um relé - tipo de interruptor elétrico - entrasse em curto circuito (falha 3) para que o reverso fosse ativado.

Um defeito no projeto do avião (falha 4) agravou a situação, porque impediu que o avião informasse ao piloto, no painel, das panes que estavam ocorrendo.

Além disso, segundo o relatório, o defeito de projeto permitiu que duas panes simples causassem uma situação de emergência grave. A pane causou uma situação de surpresa na tripulação (falha 5).

Sem entender o que fazia o motor direito perder potência e o avião a perder altura, os tripulantes agiram sobre o manete de aceleração dos motores, embora essa não fosse uma pane prevista (falha 6).

Some-se a isso o fato de que o avião, nesse momento, não havia chegado a 400 pés (100 metros), altura mínima, pela legislação aérea brasileira, para que a tripulação tome alguma atitude diante de uma pane (falha 7).

Nessa situação, um cabo deveria impedir que o motor fosse acelerado com o reverso aberto. O cabo, no entanto, desencaixou-se, permitindo que a situação se agravasse (falha 8).

(RV)


São Paulo, sexta, 12 de dezembro de 1997.

Parentes se surpreendem

da Reportagem Local e do enviado especial

Parentes de vítimas do acidente com o vôo 402 afirmam ter estranhado o fato de a TAM não aparecer como uma das responsáveis pelo desastre.


''Há muita coisa a esclarecer'', diz Fernando Melo, pai de uma das 99 vítimas. ''Não posso compreender como piloto e co-piloto não se entendem, esquecem de completar a decolagem para resolver um problema, e a Aeronáutica conclui que isso não contribuiu para o acidente.''

O advogado Renato Guimarães disse que desconfia dos resultados da comissão de investigação porque era composta por muitos representantes de empresas envolvidas, como TAM, Fokker e Rolls-Royce.

A presidente da Associação Brasileira dos Amigos e Parentes de Vítimas de Acidentes Aéreos, Sandra Assali, disse ontem que o relatório não trouxe novidades. ''Isso tudo foi previsto.''


São Paulo, sexta, 12 de dezembro de 1997.

VÔO 402

Oito falhas causaram queda

do enviado especial

Foram oito os fatores que contribuíram para a queda do Fokker-100 da TAM. Nenhum deles, no entanto, se ocorresse isoladamente, causaria a tragédia, segundo o chefe do Cenipa, Douglas Machado. ''Não houve fator preponderante.''

O relatório não aponta culpados nem distribui responsabilidades. Citando um tratado internacional assinado pelo Brasil, a Aeronáutica afirma que suas investigações têm o objetivo de apontar as falhas para evitar que elas se repitam.

O documento confirma a tese de que o que desestabilizou o avião foi a abertura do reverso da turbina direita durante a decolagem. O reverso é um tipo de marcha à ré da turbina, usado como freio em pousos.

O reverso abriu e fechou três vezes durante a decolagem, desestabilizando a aeronave. No relatório divulgado ontem, a Aeronáutica detectou diversas falhas.

A pane teve início muito antes da decolagem que culminou com a queda do avião. A trava do reverso, que deveria evitar sua abertura, estava desativada (falha 1) desde o pouso anterior. A trava é fabricada pela empresa norte-americana Northrop Grumman.

A situação não pôde ser vistoriada pela equipe que faz a manutenção da TAM porque a posição da trava, desenvolvida pela Fokker e pela Grumman, não permite vistorias pelo lado de fora do avião (falha 2).

Sem a trava, bastou que um relé - tipo de interruptor elétrico - entrasse em curto-circuito (falha 3) para que o reverso fosse ativado. O relé é fabricado pela empresa francesa LRE France.

Um defeito no projeto do Fokker-100 (falha 4) agravou a situação, porque impediu que o avião informasse ao piloto, no painel, das panes que estavam ocorrendo. Além disso, segundo o relatório, o defeito de projeto permitiu que duas panes simples causassem uma situação de emergência.

A pane causou uma situação de surpresa na tripulação (falha 5).

Sem entender o que fazia o motor direito perder potência e o avião a perder altura, os tripulantes agiram sobre o manete de aceleração dos motores, embora essa não fosse uma pane prevista (falha 6).

O avião não havia chegado a 400 pés (100 m), altura mínima pela legislação brasileira para que a tripulação tome alguma atitude diante de uma pane (falha 7).

Nessa situação, um cabo deveria impedir que o motor fosse acelerado. O cabo, no entanto, desencaixou-se, permitindo que a situação se agravasse (falha 8).


São Paulo, sexta, 12 de dezembro de 1997.

VÔO 402

Parente espera inquérito policial

do enviado especial

A presidente da Associação Brasileira dos Amigos e Parentes de Vítimas de Acidentes Aéreos, Sandra Assali, disse ontem que o relatório não trouxe novidades. ''Isso tudo foi previsto.''

Para Sandra, que perdeu o marido no acidente, o relatório da Aeronáutica não indica a inocência da TAM. ''Acho prematuro dizer, só com o relatório da Aeronáutica, que a TAM não tem culpa.'' Segundo ela, ainda faltam o resultado das investigações do delegado Romeu Tuma Júnior, que preside o inquérito policial sobre o acidente, e a decisão da Justiça.

Convicção

Sandra afirma que o relatório não muda em nada a convicção dos parentes de algumas vítimas, inclusive a dela, que foram à Justiça dos Estados Unidos para acionar o fabricante de uma peça do avião que apresentou defeito.

A Justiça norte-americana deve decidir em fevereiro do próximo ano se aceita a ação. Se aceitar, a sentença deve sair em um ano.

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Romeu Tuma Jr. vai se reunir com promotores para discutir rumos da investigação; inquérito está parado há dez meses

'Ainda há muito a apurar', diz delegado

ROGERIO SCHLEGEL
da Reportagem Local

O delegado Romeu Tuma Júnior, que preside a investigação da Polícia Civil de São Paulo sobre o acidente com o Fokker da TAM, disse ontem que o inquérito vai voltar a andar e que ''ainda há muito o que apurar'' no caso.

O inquérito está parado há dez meses, porque a Aeronáutica não forneceu informações sobre o acidente solicitadas pelos promotores e pelo delegado Romeu Tuma Júnior, que chefia a investigação.

O delegado e os promotores Mário Luiz Sarrubo e João Honório Franco, que acompanham o caso, vão se reunir neste final de semana para discutir os caminhos que a investigação deve tomar.

Tuma diz que ''é prematuro'' aceitar a conclusão da Aeronáutica como prova de que não há quem culpar criminalmente pelo acidente.

''O relatório final, quando eu o receber, será apenas mais uma peça do inquérito. Nossa investigação pode inclusive contradizê-lo, se tivermos informação técnica para isso.''

Por enquanto, o delegado só recebeu uma síntese do relatório, com pouco mais de dez páginas, enviada na madrugada de ontem para a Delegacia Seccional Sul.

O promotor Sarrubo, que teve acesso à síntese do relatório, disse que as conclusões da Aeronáutica ''não trazem novidade'' diante do que já era sabido.

O delegado e os promotores continuam esperando os dados pedidos à Aeronáutica, como a transcrição da conversa dentro da cabine - contida na caixa-preta - e o depoimento do piloto que fez o último vôo com o avião antes do acidente.

''O que a Aeronáutica mandou está a milhares de quilômetros do que pedimos e do que é indispensável para a investigação'', disse Sarrubo.

O promotor acredita que será necessário ouvir os integrantes da comissão - cujos nomes ainda desconhece, apesar de tê-los pedido inclusive pela via judicial. O objetivo do inquérito é apurar se alguém gerou ou poderia ter evitado o acidente, mas não o fez por negligência, por exemplo.


A Folha apurou que interessa especialmente aos investigadores de São Paulo o depoimento do tripulante que fez o penúltimo vôo com o Fokker PT-MRK, da TAM.

O piloto Armando Luís Barbosa trouxe o avião de Caxias (RS) a São Paulo. Na investigação da Aeronáutica, ele disse que alertou o piloto que se acidentou de que havia falha no ATS, um sistema de aceleração automática da aeronave.

Há a possibilidade de que essa informação tenha levado o piloto José Antônio Moreno a reagir a um defeito inexistente, ignorando a falha no reverso, decisiva para o acidente.

Quando depôs no inquérito, Barbosa não repetiu a informação.

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