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São Paulo, 31 de outubro, dia das
bruxas
Manhã de quinta-feira, o PT-MRK termina sua
última viagem na rua Luís Orsini de Castro com 22 imóveis destruídos e
pelo menos 98 mortos, na maior tragédia da aviação paulista
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Foto: MAX PINTO
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Bombeiros, policiais militares e
voluntários carregam vítima: trabalho e solidariedade na remoção dos
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Pintado de azul escuro, com a inscrição "number 1", o Fokker 100,
prefixo PT-MRK, da TAM, taxiou pela pista 17 R do Aeroporto de Congonhas,
em São Paulo. Eram 8 horas e 26 minutos da quinta-feira, 31 de outubro.
A
bordo, o plano do vôo 402 indicava que o avião deveria chegar à cabeceira
dos 1.800 metros de pista, a mais de 33 metros de altura. Acelerando em
linha reta, o piloto José Antônio Moreno, 35 anos de idade e nove mil
horas de vôo, ganharia pelo menos 165 metros de altura quando, então,
faria uma curva à esquerda. Seria o caminho certo para levar 90
passageiros e outros cinco tripulantes ao Rio de Janeiro.
Passados menos
de 30 segundos do início da decolagem, o mecânico Antônio Bueno ouviu um
barulho estranho. De dentro de um hangar da Líder Táxi-Aéreo, localizado
próximo à cabeceira 35, ele se virou. Sabia que era o barulho do reverso,
o movimento que inverte o fluxo do ar e abre a parte traseira da turbina
em forma de concha para auxiliar a frenagem na hora do pouso. "Quando eu
ouvi o barulho, olhei e vi a concha se abrindo, e outra vez e outra vez.
Corri com outros colegas para o meio da pista e vimos o avião caindo",
contou ele a ISTOÉ.
O Fokker não conseguiu ultrapassar os
programados 33 metros de altura. Segundo registraram os radares do Centro
Integrado de Defesa Aérea (Cindacta) e Controle do Tráfego Aéreo, sua
velocidade batia em 300 quilômetros por hora.
Tinha os tanques cheios de
querosene e viajava com apenas 18 lugares vazios. Despregado do chão,
balançou para a direita. "O avião não conseguiu voar", afirma uma fonte da
Aeronáutica. No jargão dos pilotos, isto significa que a aeronave teve
problema de motor, como diz Bueno, ou de comando. O comandante Moreno
tinha três mil horas de vôo em Fokker 100. O co-piloto Ricardo Luís Gomes
Martins, 27 anos, tinha quatro mil horas de vôo, 160 delas em Fokker 100.
Cerca de 30 segundos após a
decolagem, a dois quilômetros da cabeceira sul de Congonhas, o avião bateu
com a asa direita no teto de um edifício de três andares, localizado na
Vila Santa Catarina*.
(*
na
verdade, Jabaquara)
Transformado numa bola de fogo, bateu sucessivamente
em outros dois prédios e destruiu totalmente oito casas. Outras 11 foram
atingidas por pedaços da fuselagem. Espalhou labaredas, destroços, pânico
e mortes na rua Luís Orsini de Castro.
Às 8 horas e 28 minutos dava-se a
maior tragédia já registrada no Aeroporto de Congonhas, que com uma média
mensal de 350 mil passageiros é o maior terminal doméstico do País e
passarela obrigatória de políticos, empresários e artistas da televisão. O
vôo 402 não deixou sobreviventes. O PT-MRK matou pelo menos dois moradores
da Vila Santa Catarina.
Até agora, o depoimento de Bueno é a peça
mais intrigante da comissão que investiga o desastre. Como mecânico de
manutenção dos jatinhos da Líder, ele chegou ao trabalho uma hora antes do
acidente. Havia dormido bem e não tem problemas de visão. Coordenada pelo
Departamento de Aviação Civil (DAC), a comissão de investigação é formada
por representantes de sete instituições, entre elas a Rolls Royce, que
fabrica as turbinas do Fokker, e a própria TAM.
As conclusões devem sair
no máximo em 90 dias, mas não existem impedimentos para se descobrir os
reais motivos da tragédia antes do prazo limite. A torre de controle
gravou o último diálogo com o piloto. Além disso, as duas caixas-pretas do
avião foram encontradas.
Uma delas, a chamada Voice Recorder, grava as
comunicações da tripulação. A outra, a Data Recorder, registra todos os
parâmetros do avião: velocidade, altitude, inclinação e aceleração, por
exemplo. Antes mesmo que elas fossem abertas, contudo, os militares do DAC
ouviram não apenas o depoimento de Bueno como o de outros três mecânicos.
Segundo um major que acompanha os trabalhos, todos garantiram ter visto o
reverso acionado. Nesse caso, seria preciso esclarecer o que teria
acontecido com o piloto ou o equipamento para que a turbina esquerda
empurrasse o avião para a frente enquanto a direita o seguraria no
movimento restrito à aterrissagem.
"O fato de a turbina ter aberto
e fechado três vezes é um indício de interferência eletromagnética",
afirma outro oficial da Aeronáutica que também está envolvido na apuração
do acidente. A hipótese de que um agente externo tenha contribuído para o
desempenho anormal dos equipamentos é reforçada pelos antecedentes do
piloto, tido como um dos melhores profissionais da companhia, e da
aeronave, que, segundo nota oficial da TAM, jamais registrou qualquer
defeito técnico.
"Esse avião havia feito um check-up completo no dia 15 de
outubro", afirma o vice-presidente de operações da TAM, Luiz Eduardo Falco
Pires Correia. "Estava tudo em ordem."
No dia do acidente, o PT-MRK saiu
de Caxias do Sul e passou por Curitiba, antes de pousar em São Paulo. As
interferências eletromagnéticas são causadas por ondas emitidas por
computadores portáteis, telefones celulares, pagers ou walkman. O uso
destes aparelhos a bordo tem sido o principal responsável por pequenas
panes registradas em todo o mundo, mas só agora se suspeita que eles
possam causar grandes desastres.
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Foto: JUCA RODRIGUES
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... e o trem de pouso do Fokker 100 no
quarto: susto dentro de casa
(minha
casa)
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As
autoridades da área são unânimes em apontar que os laptops e celulares
deturpam as medições de altura e de velocidade, indicando para o
comandante números que não batem com a realidade.
Há três anos, por
exemplo, o piloto de avião de uma grande companhia fretado para levar
crianças ao Caribe percebeu que o tanque da aeronave "enchia". Chamou a
aeromoça e descobriu que os minigames que entretinham a garotada estava
alterando o marcador de combustível.
Segundo três pilotos ouvidos por
ISTOÉ, os aparelhos eletrônicos também interfeririam diretamente nos
processadores centrais dos computadores de bordo. A cada vôo, os pilotos
programam as turbinas, separadamente, para pouso ou decolagem. "É possível
que uma interferência de telefone celular acionasse a programação de pouso
em uma das turbinas", afirma um dos pilotos.
"Nós sabemos que
celulares, computadores e outros aparelhos interferem nos instrumentos de
bordo", diz um piloto da própria TAM. "Mas não existe uma lógica de como
eles interferem." De acordo com ele, um problema com a magnitude da
reversão de uma das turbinas, semelhante ao que, em 1991, derrubou um
avião da Lauda Air, em Bangcoc, na Tailândia, só poderia ser solucionado
se o avião estivesse acima de 800 metros, em velocidade cruzeiro. "Na
decolagem ou no pouso, o piloto não tem tempo de nenhuma reação", explica.
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Foto: ALEX SOLETTO
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Alessandra Fernandes chora ao receber a
confirmação da morte do amigo, o administrador Roberto Fisher:
desespero
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O "número 1", como era
conhecido entre os funcionários (apesar da inscrição em inglês), era uma
espécie de porta-bandeira da TAM. Ganhara este nome por conta do
título de
melhor companhia regional de aviação do mundo, conferido no ano passado
pela revista Air Transport World, a bíblia da aviação civil.
No
momento do acidente,
o comandante Rolim Adolfo Amaro, presidente da
companhia, estava dentro de um jato Citation, de sua propriedade, em
direção a Miami, onde iria fechar novos negócios. Em virtude de uma
forte virose que contraiu há poucos dias, ele passou mal e pediu para
fazer uma pequena escala no Caribe.
No quarto de um hotel, assistiu à
notícia do desastre pela CNN.
"Quero que todas as
providências sejam tomadas no que diz respeito às famílias das vítimas",
recomendou ao
entrar em contato com seus auxiliares no Brasil.
"É o que temos a fazer
diante desta tragédia."
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Foto: MAX PINTO
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Pássaro é encontrado morto dentro de uma
das casas atingidas pelo avião: destruição total
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Com novos jatos, todos da Fokker e
com menos de três anos de fabricação, a TAM cresceu nos últimos tempos
graças ao sucesso de seu serviço - que inclui salas de espera com pianista
e um balcão de sucos, frutas, salgadinhos e café -, e especialmente aos
vôos centro-a-centro.
Em cidades como São Paulo, Rio e Belo Horizonte, por
exemplo, eles economizam até uma hora em viagens de carro até os
aeroportos internacionais. A cada mês, os aviões da empresa transportam
400 mil passageiros.
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Foto: MAX PINTO
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Rastros da destruição na Vila Santa
Catarina: região densamente povoada
(na
verdade, Jabaquara)
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Criada há 75 anos, a Transportes
Aéreos Marília tinha dado há três meses o seu mais ambicioso salto:
comprou as Linhas Aéreas Paraguaias, trocou seu nome para Transportes
Aéreos do Mercosul e deu o primeiro passo para se tornar uma companhia
internacional. Neste ano, suas ações se valorizaram em mais de 100% e o
faturamento quase dobrou, gerando irritação na concorrência.
A empresa
garante que neste ano recebeu pelo menos três telefonemas anônimos com
ameaças de bomba: em Uberaba, Uberlândia e Brasília. Na quinta-feira, após
o acidente, a companhia teria recebido um quarto telefonema, desta vez em
São Paulo, com uma ameaça mais ampla: "O acidente de hoje é o começo do
fim da TAM." Até a madrugada de sexta-feira, a empresa não havia informado
o fato ao delegado Romeu Tuma Júnior, que preside o inquérito policial
sobre o acidente.
A elucidação do desastre não é fundamental apenas para a
sobrevivência da empresa. Se o relatório final chegar à conclusão de que
98 pessoas, pelo menos, morreram por causa de uma pane causada por
aparelho eletrônico, a segurança dos vôos exigirá medidas que devem ir
além dos atuais pedidos para se evitar o uso de celulares e computadores
portáteis a bordo das aeronaves. |