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Dez segundos de terror
Investigação reconstitui a queda do Fokker 100 e
determina alteração no projeto do avião holandês
NORTON GODOY
Quando o Fokker 100 atingiu a velocidade de
190 km por hora, o co-piloto puxou gentilmente o manche do avião em
direção ao seu peito. O nariz da aeronave levantou apontando para o céu,
as rodas despregando da pista a 220 km por hora. Uma campainha disparou na
cabine.
A luz vermelha de alerta piscava insistentemente no painel onde se
lia "reverse deploited". Era o aviso de que o reverso, o freio
aerodinâmico do motor direito, havia aberto. O co-piloto, que já havia
experimentado a situação nos simuladores, nem pediu socorro ao piloto.
Sua
reação foi imediata. Cortou a potência desse motor e manteve o esquerdo
acelerado. O Fokker 100 continuou ganhando altura. Com o avião
estabilizado, o comandante comunicou o ocorrido à torre do aeroporto.
Pediu permissão para aterrissar em caráter de emergência e voltou ao solo
menos de 15 minutos depois.
Alguns passageiros reclamaram do contratempo e
foram todos embarcados em outro avião da companhia. A história do vôo 402
só não transcorreu dessa maneira porque faltou o alarme e a luz vermelha
no painel.
Ela não existe nos modelos 100 da Fokker, mas faz parte
do sistema de segurança de outros aviões, como os da Boeing por exemplo.
Os membros do Cenipa (Centro de Investigação e Prevenção de Acidentes
Aeronáuticos, órgão do governo que investiga a tragédia) chegaram à
conclusão de que uma falha de projeto foi determinante na queda do avião
que fazia o vôo 402.
Apesar de ser considerada uma das aeronaves mais
seguras do mundo, seus projetistas não previram a possibilidade de o
reverso do motor - o freio aerodinâmico que ajuda a parar o avião durante
o pouso - abrir na decolagem, antes de o aparelho atingir os mil pés de
altura (cerca de 330 metros).
"É uma possibilidade em um milhão", afirmou
a ISTOÉ um dos especialistas que investigam o acidente. A partir de agora,
todos os Fokker terão de ter este dispositivo de segurança. É a primeira consequência prática para se evitar que a repetição da tragédia no vôo
506, novo número do extinto 402. A possibilidade em um milhão aconteceu na
manhã de 31 de outubro no Aeroporto de Congonhas em São Paulo.
Entre a
abertura do reverso e a queda que matou 98 pessoas foram apenas dez
segundos. Acompanhe a tragédia segundo a segundo.
10 - Uma
falha mecânica libera a pressão no sistema hidráulico que mantinha o
reverso do motor direito fechado. O Fokker 100 está na mão do co-piloto
Ricardo Gomes Martins, que cumpria parte de seu treinamento.
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- Com o reverso aberto, o fluxo de ar espelido pela turbina é
direcionado para a frente, invertendo a ação do motor direito. A ação de
duas forças contrárias faz o avião se inclinar levemente para a direita. O
desastre vai começar.
8 - O auto-throttle (parte do piloto
automático) reage automaticamente à pane, reduzindo o manete de velocidade
do motor direito para a posição "idle", o ponto morto do avião. Mantido
dessa forma, o co-piloto poderia ter ganhado tempo para cortar a turbina
defeituosa, retomando então a rota correta e completando a decolagem
apenas com o motor esquerdo.
7 - O movimento do manete
chama a atenção do piloto José Antônio Moreno. Só três segundos depois da
pane, ele percebeu que alguma coisa estava errada. Não há nenhuma
indicação do tipo de problema. Moreno foi levado a crer numa falha no
auto-throttle. O avião começa a guinar para a direita. Os passageiros mais
atentos se assustam com o barulho causado pelo reverso aberto.
6 - O piloto assume o comando e pede ao co-piloto que
desligue o auto-throttle. "Em cima, em cima", diz Moreno. A frase foi
gravada na caixa preta. Moreno se refere ao botão que desliga o sistema
automático. Ricardo Martins cumpre a ordem. O manete que acelera a turbina
direita fica liberado para ser operado manualmente. A tragédia vai se
acelerar.
5 - O avião se inclina um pouco mais para
direita. O piloto pega no manete do motor direito e o empurra para frente.
O Fokker 100 dá uma espécie de "cavalo de pau" em pleno ar.
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- Por causa da abertura do reverso, a aceleração da turbina na
potência máxima acentua a queda em curva para a direita. O avião vai
perder sustentação. Não existe mais retorno. A queda é inevitável. Os
passageiros começam a gritar.
3 - O monitor do computador
de bordo emite um alerta gravado: "Don't sink, don't sink", diz uma
metálica voz masculina. Ela é acionada quando os instrumentos indicam que
o avião está "em mergulho". O piloto ainda gira o manche para a esquerda e
o puxa todo para trás tentando compensar a queda para a direita. Os flaps
das asas são movimentados.
2 - A ponta da asa direita bate
no telhado de um prédio. "Meu Deus, meu Deus", grita o piloto. O chão se
aproxima rapidamente. As cadeiras dos passageiros saem do lugar. Os de
trás vão esmagar os da frente.
1 - O avião está caindo de
bico. Faltou pouco para que capotasse totalmente. As cadeiras vão se
imprensando em direção à cabine. Em milésimos de segundo, os passageiros
morrem esmagados pelos que vem de trás. Praticamente todos tiveram a
coluna vertebral quebrada. Sob o impacto de um choque a mais de 280
quilômetros por hora, a morte é instantânea e sem dor.
0 -
O querosene do Fokker 100 pega fogo. As labaredas se espalham pela rua
Luís Orsini de Castro. O pedreiro Tadao Funada morre queimado segundos
antes de despencar do segundo andar do prédio em que trabalhava. Os
destroços derrubam totalmente oito casas. Numa delas,
uma parede cai sobre
o professor de matemática Jorge Tadeu da Silva*. Se não tivesse caído de
bico, o avião teria deixado um rastro de destruição incomparavelmente
maior.
(*
Comentário: nesta a Isto É me matou. Na realidade
quem faleceu foi meu vizinho, o professor Marcos Antônio Oliveira).
As investigações do Cenipa, auxiliadas por especialistas da
Fokker e da Rolls-Royce (fabricante dos motores do avião), chegaram à
conclusão que uma falha técnica causou a abertura do reverso do motor
direito, na hora errada.
Testes realizados neste fim de semana nos
simuladores de vôo da própria Fokker, na Holanda, deveriam determinar qual
foi a falha. A hipótese mais provável é a quebra de um pino que trava o
sistema hidráulico do reverso (braços mecânicos acionados por um comando
eletrônico). Ele pode ter quebrado por estar fraco (fadiga de material) ou
mal colocado.
Embora o pino do motor direito não tenha sido recuperado nos
destroços do avião, as peças do sistema de trava do reverso estão sendo
analisadas pelo microscópio eletrônico do Centro Tecnológico da
Aeronáutica (CTA), em São José dos Campos.
Seja qual for a razão
da abertura inadvertida do reverso, os investigadores da Força Aérea têm
certeza de que os pilotos não souberam o que estava acontecendo. Para
chegar à reconstituição dos últimos dez segundos do vôo 402, os membros do
Cenipa seguiram à risca a primeira regra dessas investigações: começar
pelas evidências. São quatro:
1. A primeira delas foi o depoimento
do mecânico, que afirmou ter visto o reverso abrir nos segundos iniciais
da decolagem. "Sem esse depoimento, levaríamos muito mais tempo para
chegar às verdadeiras causas do acidente", afirmou o coronel Douglas
Ferreira Machado, coordenador do Cenipa e que já investigou mais de 700
acidentes aéreos.
2. Depois dos testemunhos, deve-se buscar
evidências materiais no que sobrou do avião. É um trabalho de detetive. As
peças são analisadas uma por uma. Primeiro as do equipamento que,
supõe-se, deu início à pane. No caso, a turbina direita.
3. Os
registros das caixas pretas são analisados por peritos. Além do diálogo
dos pilotos na cabine, também fica gravado tudo o que apareceu nos
mostradores do painel de controle. Introduzidas em um simulador, essas
informações reproduzem os comandos do avião na hora do acidente.
4. Levanta-se a possibilidade de interferências eletromagnéticas
estranhas ao avião, como telefones celulares, rádios e computadores
portáteis. Esta causa só pode ser comprovada por exclusão, porque um
problema deste tipo não deixa registros na parte eletrônica ou mecânica do
avião. No máximo se poderia detectar alguma ligação de um passageiro no
caso de quebra do sigilo telefônico das vítimas do desastre. Mas ainda
assim seria a confirmação de um indício e não uma prova definitiva. A
investigação do Cenipa não vai apontar culpados pelo acidente. Esse
trabalho está a cargo da polícia.
Colaboraram: Edna Dantas e
Mário Simas Filho |