São Paulo, sábado, 01 de novembro de
1997.
PERIGO NO AR
Moradores do local onde Fokker-100 da
TAM caiu no ano passado ainda não
esqueceram a tragédia.
Rua da
queda convive com fantasma do 402
ROGERIO SCHLEGEL
Da Reportagem Local
A rua Luís Orsini de Castro, no
Jabaquara
(zona sudoeste de
São Paulo),
ainda vai conviver muito tempo com o
fantasma do vôo 402, que caiu ali no dia
31 de outubro do ano passado.
O local
fica na rota de decolagem do aeroporto
de Congonhas e o barulho dos aviões não
deixa os moradores esquecerem da
tragédia.
No lugar das casas e telhados destruídos
do dia do acidente, há imóveis em
reforma e prédios com pintura e
cobertura novos. Mas a lembrança da
tragédia continua.
''Dormimos de luz acesa'', conta
Conceição Mateus Silva, dona do sobrado
em que caiu o trem de pouso do
Fokker-100 acidentado.
Ela e o
marido estavam em casa às 8h26 do dia do
desastre e ficaram cercados pelo fogo
que se seguiu. ''Fomos salvos por dois
bombeiros que até hoje tentamos
identificar, mas não conseguimos''.
O quarto em que caiu o trem de pouso era
usado pelo filho Augusto,
que não mora em São Paulo, quando estava
na cidade. Depois de reformado - no dia,
teve o teto destruído e o interior
queimado -, o quarto não é mais usado.
''Ele prefere dormir num outro quarto
vazio. Ninguém mais dormiu lá'', conta
Arnaldo Leonardo da Silva, marido de
Conceição.
A vizinha e
nora Maria José Figueiredo da Silva diz
que, apesar da aparência de reconstrução
da rua, tudo é diferente.
''Quando os aviões passam, eu fico
prestando atenção no barulho. Se noto
alguma coisa estranha, me dá pânico'',
conta Maria.
Ela lembra ter sofrido grande choque no
dia do acidente porque, ao voltar para
casa, avisada da queda do avião, foi
informada por um policial que seus
sogros tinham morrido dentro de casa.
''Nossa Senhora de Fátima nos salvou'',
diz Conceição.
Maria diz que não quer continuar morando
na rua. Só não se mudou porque, segundo
ela, o dinheiro da indenização paga pela
seguradora da TAM, a Unibanco, não foi
suficiente para repor tudo o que tinha
dentro de casa.
''Eles pagaram a reconstrução da
estrutura do nosso sobrado e tivemos de
desembolsar muito dinheiro para repor
tudo. Quando eu tiver dinheiro, mudo
daqui. Não vivo tranquila.''
Casa melhor
Em matéria de moradia, Sônia Regina
Litwin levou vantagem com o acidente. No
lugar da casa de dois quartos, está
acabando de construir uma maior, de três
quartos, com o dinheiro da indenização
- que não revela quanto é.
Ela mora há um ano em uma casa cujo
aluguel é pago pela TAM. A construção da
nova casa deve acabar neste mês. Na área
emocional, Sônia se sente abalada. ''Já
tive depressão e tomei Prozac. Ainda
vivo estressada.''
Obs: o nome de Conceição foi corrigido e
o de Jorge substituído pelo morador do
quarto, meu irmão Augusto.