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O DIA DO ACIDENTE
No dia 31 de outubro de 1996, uma
quinta-feira, saí de casa às 6:45 hs para trabalhar. Além do meu
trabalho como jornalista, era início da internet no Brasil e eu escrevia
para diversos sites artigos sobre o cotidiano da cidade de São Paulo e
fazia crítica de cinema.
Por
prazer, e para completar o orçamento doméstico, lecionava língua
portuguesa em duas escolas em bairros próximos da minha residência.
Esse
era meu primeiro compromisso do dia. Às 7:00 hs. estava lecionando.
Por volta das 8:40 a secretária da
escola avisou-me que havia um telefonema urgente. Era meu irmão mais
novo, o Mauro. Dirigi-me à secretaria e fui surpreendido pelo que de
início considerei mais uma brincadeira dele: “Caiu um avião em cima da
sua casa”. O interrompi dizendo que não era hora para piadas, mas ele –
com voz desesperada – reafirmou e disse que nossos pais (que moram ao
lado da minha casa) conseguiram escapar e foram levados para o
Pronto-Socorro do Jabaquara.
Desesperei-me. Ainda tentando acreditar que seria uma espécie de
“pegadinha” deixei os alunos com a professora substituta e corri para
casa.
Não
foram necessários mais do que 500 metros para saber que algo grave havia
acontecido: avistei uma enorme coluna de fumaça preta subindo do local
onde moro.
Acelerei mais ainda em direção à minha casa. Era 8:55 quando me deparei
exatamente com esta imagem:

Foto: Folha da Tarde
O
cenário – pode parecer clichê – era de um bombardeio aéreo. Não consegui
ver um avião ali, apenas destroços retorcidos, casas destruídas, chamas
altas, muita fumaça e, infelizmente, corpos, muitos corpos.
Permaneci estático na calçada do outro lado da rua defronte ao meu
sobrado. Era difícil acreditar, muito difícil de assimilar o que estava
vendo. Acredito que tenha entrado numa espécie de estado de choque.
Minutos depois, uma médica – não vi de onde ele surgiu - já estava
medindo minha pressão, me fazendo perguntas e oferecendo-me água.
Conversamos rapidamente, ele me informou que meus pais estavam bem –
apesar de meu pai estar com uma queimadura de segundo grau no braço
direito e que eu devia sair dali. Não atendi ao pedido, permaneci ali.
Naquele momento havia um caminhão semelhante ao do Corpo de Bombeiros,
mas de cor amarela, uma ambulância, policiais militares e de trânsito -
que estavam em patrulha pela região - e algumas pessoas – moradores das
casas não atingidas e transeuntes que se aproximavam, todos tentando
fazer alguma coisa.
Mangueiras de jardim ligadas em casas do lado oposto ao da queda,
pessoas com baldes, policiais derrubando portões buscando resgatar
alguém dentro das casas atingidas, uma correria, um desespero total.
Passados alguns minutos chegaram os caminhões do Corpo de Bombeiros,
mais policiais – militares e civis –, cadetes da aeronáutica e mais
ambulâncias. A Rua Luis Orsini de Castro foi isolada e os curiosos foram
afastados.
Inicio-se o combate às chamas e intensificou-se a busca por
sobreviventes entre os destroços do avião e das casas na área mais
atingida da rua. Todos, oficiais e voluntários, atuavam de maneira
frenética. Corri para ajudar. Fomos em direção às casas mais abaixo da
rua.
Onde
era possível chegar perto, entrar ou gritar perguntando se havia alguém,
nós estávamos. Um cachorro foi tirado com vida dos escombros. Um momento
de alegria, mas foi o único.
Na rua
foram dez casas atingidas diretamente pela queda do avião. Várias outras
sofreram danos pelos fragmentos da aeronave.
Para
facilitar o entendimento, vou nomear as casas atingidas de um a dez.
Minha casa era a segunda e a dos meus pais a terceira.
Antes
de cair sobre nossas casas o avião atingiu três prédios: na Rua Jurupari
o primeiro teve seu telhado arrancado, o segundo foi “cortado” pela asa
direita do Fokker e o terceiro – na esquina da Luis Orsini com a Rua
Victor Eugênio do Sacramento, o andar superior foi destruído fazendo a
primeira vítima fatal em terra: o Sr. Tadao Funada, 60 anos, pedreiro,
que, com corpo em chamas, despencou do prédio de dois andares onde
trabalhava consertando o telhado.
O
avião – soube depois – caiu de lado e de maneira perpendicular à rua,
daí após estes três prédios ele ter “aterrissado” para dentro das casas
e não na rua como alguns imaginavam.
Na
casa numero um derrubou a frente e o telhado vindo a trombar com a
minha. A cauda caiu em minha garagem, o trem de pouso chocou-se com a
parte superior do sobrado e caiu dentro do quarto de meus pais - sobre a
cama deles - e uma das turbinas esmagou o carro novo que eles
recentemente haviam comprado.
As
estruturas de nossas casas ficaram seriamente danificadas, as chamas
atingiram a frente de ambas – com maior intensidade na dos meus pais - e
os telhados destruídos permitiram a entrada do combustível do avião que
tomou conta do interior das mesmas.
Nas
casas quatro, cinco e seis a aeronave “deitou-se”, abrindo-se por
completo. A destruição foi total. Ali se concentraram a maior parte dos
corpos dos ocupantes do Fokker.
Na casa quatro as outras duas vítimas fatais em terra: o professor
Marcos Antônio Oliveira, esmagado pela laje de sua garagem
e
Dirceu Barbosa Geraldo,
seu colega, que faleceu após quase trinta dias de internação em UTI com
queimaduras de terceiro grau.
A
partir da casa sete o bico do avião as atravessou pelo meio destruindo
tudo o que estava no caminho até parar na casa dez.
Viam-se em todas as casas da rua – de ambos os lados - as marcas da
queda. Algumas destruídas e outras dando a impressão de terem sido
metralhadas. Foram os fragmentos menores que as atingiram. Os carros que
estavam na rua foram consumidos pelas chamas.
Em
questão de minutos a imprensa já estava no local. Barrados no início da
rua buscavam incessantemente informações. Quando pude, atendi a todos.
Mas
uma informação equivocada era repisada: a de que o piloto havia desviado
avião da escola próxima ao local da queda. Sem detalhes do que ocorreu
era posta como uma possibilidade e, como tal, um ato de heroísmo do
comandante.
Este
fato foi explorado por algum tempo, já que uma matéria do “Globo
Repórter” deu ênfase a essa versão entrevistando crianças, professores,
mostrando cartazes em homenagem ao comandante Moreno (o piloto), tudo
dentro daquela tradicional busca por um herói em meio à tragédia. Isso
causou incomodo nos dias posteriores (as pessoas deixavam cartazes
pendurados nas casas e acendiam velas em homenagem ao piloto). Mais a
frente essa versão se mostrou uma inverdade.
Durante todo o dia acompanhei – ao lado dos irmãos do professor Marcos –
a procura e retirada dos corpos. Eram cenas terríveis. Mesmo atuando
como jornalista e já tendo presenciado todo tipo mortes em acidentes de
veículos ou pessoas mortas em crimes, nada chegou próximo ao que vi
naquele dia. Eram seres humanos em estado irreconhecível. Corpos
carbonizados, mutilados, membros que surgiam dos escombros sem um corpo
por perto. Uma sensação de angústia e de consternação se abateu sobre
nós.
O
desespero dos parentes do professor só aumentava. Nenhum corpo retirado,
e que era possível identificar, era o dele. E assim foi até a noite.
Mas
meu dia não estava restrito a apenas a tragédia do vôo 402. A aeronave
transportava - escondida na fuselagem – três quilos e novecentos gramas
de cocaína que, para meu infortúnio, foram achados diante de minha casa.
Fui interpelado por policiais do 35º Distrito Policial do Jabaquara
sobre o que sabia sobre “a droga”. “Mas que droga?”, dizia eu em meio a
toda aquela confusão.
Muitas
perguntas foram feitas até que interpelei o delegado Romeu Tuma Jr.
sobre aquele tipo de abordagem, relatando meu desconhecimento do fato e
formalizando queixa quanto à ação dos investigadores. Não fui mais
incomodado. Também nada mais falou-se sobre o episódio.
No dia
seguinte outra surpresa: fui notificado pela Sub-Prefeitura do Jabaquara
a reconstruir minha casa no prazo máximo de dez dias sob pena de multa.
Levei a notificação aos colegas da imprensa que a publicaram. O
subprefeito (espécie de administrador regional) foi demitido no dia
seguinte.
A
ausência de funcionários da TAM para prestar auxílio, dar informações,
dar qualquer tipo de assistência foi notada. Foram vistos apenas em dois
momentos: na remoção dos pedaços da aeronave – o que é uma ilegalidade,
pois nenhuma parte envolvida no acidente pode fazer esse trabalho por
haver a possibilidade de, ao manipular os fragmentos, comprometer o
Laudo do acidente.
O
outro momento em que foram vistos, foi ao trazer um caminhão baú com a
logomarca da empresa para a retirada dos corpos.
A FALTA DE ESTRUTURA
-
Ficou patente que
não há no Brasil a menor estrutura para lidar com tragédias.
-
-
- não
havia um comando único nas operações;
-
- não
havia uma central de informações (nem para parentes, nem para a
imprensa)
-
- não
havia equipamentos adequados para o trabalho de busca e remoção dos
-
passageiros e tripulantes. Não havia
sequer aqueles sacos onde são
colocados os corpos das
vítimas. Elas foram embaladas em sacos de lixo;
- não
havia pessoal qualificado para lidar com esse tipo de trabalho.
Todos que
-
participaram merecem o título de heróis, pois realizaram um trabalho
difícil que, com certeza, deixou cicatrizes psicológicas profundas
em todos eles;
-
- as
ambulâncias que estavam no local não eram equipadas para esse tipo
de
-
ocorrência;
-
- a
alimentação e a água dada aos participantes do resgate aos corpos
foram
-
fornecidas pela vizinhança;
-
- a
ausência de um representante da companhia aérea, que mesmo com pouca
informação, demonstrasse ao menos a preocupação da empresa em
relação às vítimas e seus familiares;
-
- a
falta de assistência por parte da Prefeitura. Os moradores tiveram
que comprar lonas plásticas para cobrir as casas – choveu à tarde -
e eles mesmos subiram nos telhados para colocá-las (eu e meu irmão
também o fizemos).
A POSTURA DA TAM E DA
UNIBANCO SEGUROS
A
postura da empresa aérea durante o dia do acidente foi a de, da sua
sede, através do seu vice-presidente, Luís Eduardo Falco, conceder
entrevistas e declarar que assumia o comando da operação de resgate e de
assistência às famílias das vítimas, já que o presidente da TAM, Rolim
Adolfo Amaro estava fora do país.
Em
nota, a TAM divulgou que:
"Neste doloroso
momento, a TAM se sente na inadiável obrigação de declarar que está
prestando todo e qualquer apoio possível aos familiares e amigos de
todas as lamentáveis vítimas, e a todos assistirá, em tudo que
necessário for, para aliviar a irreparável dor e o trauma impostos por
esse funesto acidente.”
Não
houve naquele dia nenhuma assistência aos moradores vítimas da tragédia.
Soubemos – no dia seguinte, pela imprensa – que a TAM havia
disponibilizado um flat para que ficássemos hospedados. Aliás, numa
demonstração de total insensibilidade, o flat escolhido (Golden Flat)
está localizado ao lado da cabeceira do Aeroporto de Congonhas.
A TAM
dava partida a uma forte operação de preservação de sua imagem, não
importando se suas declarações fossem verdadeiras ou não. O fundamental
para eles era a empresa e não as famílias das vítimas e os moradores,
como ficou comprovado ao longo destes dez anos.
O
incrível para quem tem a ética como norte na vida é que a maneira como a
TAM lidou com a tragédia do vôo 402 tornou-se um “case” para assessorias
empresariais, tema de palestras do Sr. Luís Falco, tema de livros e
dissertações, ou seja, para o meio empresarial, um exemplo a ser seguido
em “gerenciamento de crises”.
Em
minha opinião é na verdade um “case” de como uma empresa, com seu
poderio econômico e bons contatos, não importando se suas ações reais
não condizem com as declarações dadas, pode e consegue passar uma imagem
de solidariedade e bom-mocismo numa tragédia e ver sua empresa sair do
episódio com o mínimo de danos possível.
De
volta ao Brasil no dia seguinte, o “comandante” Rolim, em entrevista
coletiva à imprensa, declarou que iria indenizar todas as vítimas que
estavam a bordo do Fokker 100 sem que fosse necessária qualquer
iniciativa legal por parte das famílias. As demais vítimas, que foram
mortas fora do avião, deveriam entrar em contato com a TAM para que o
caso fosse encaminhado à Unibanco Seguros:
“A empresa está
disposta a fazer acordo com as pessoas que foram prejudicadas e não
estavam na aeronave.”
"Faremos tudo para minimizar a dor das famílias", afirmou o
presidente da TAM.
O
dinheiro a ser pago aos beneficiários das vítimas do avião e em terra
não sairia dos cofres da companhia. Isso porque a apólice de seguro
feita pela TAM cobre todas essas despesas.
O
seguro da companhia cobre a aeronave, as vidas dos passageiros,
tripulantes e terceiros - ele é da ordem de 429 milhões de dólares.
Destes, 29 milhões de dólares são contra danos na aeronave e o restante
contra os danos materiais e pessoais de terceiros.
Sobre a indenização, José Rudge, presidente da Unibanco
Seguros, declarou no mesmo dia:
"O valor é algo
próximo a isso e será mais que suficiente para cobrir quaisquer
prejuízos com o acidente".
Porém
não foi o que aconteceu. Aguardo minha indenização até hoje.
A ESTRATÉGIA DAS EMPRESAS
A base
montada pela TAM no primeiro andar do Golden Flat não teve como objetivo
o amparo às vítimas do acidente. Na verdade foi montado um escritório
para reuniões com as vítimas e o pessoal da TAM e da Unibanco Seguros.
Tudo
muito conveniente para a empresa: afastaram-nos da imprensa, faziam
pressões diárias para que aceitássemos o valor que eles queriam pagar a
título de indenização e ainda usaram essa hospedagem e a inexistente
"assistência total às vítimas" como ação de marketing.
O
momento era inoportuno para tratar de valores. O estado psicológico em
que todos se encontravam só era favorável às investidas das empresas.
Muitos caíram e assinaram recibos por não suportarem a pressão e ter o
desejo de ver-se livre de todo aquele ambiente carregado, por um lado de
tristeza e de outro da sanha aproveitadora das duas companhias.
Eu e
minha família não aceitamos as ofertas. Seríamos vítimas duas vezes.
Mas os
que não cederam a essa pressão inicial tiveram que acompanhar uma
empresa de perícia – contratada pela Unibanco Seguros – até suas casas.
Mais
uma vez a prevaleceu a insensibilidade e indiferença em relação àquele
local e o que lá havia ocorrido. Após periciar as casas, se apressaram
em afirmar que tudo poderia ser consertado, que não havia nenhum dano
sério e assim relatariam em seu laudo.
Na
minha casa e na dos meus pais, além da parte frontal destruída, as
laterais ficaram com danos na estrutura de sustentação e o telhado
totalmente inutilizado. Na parte interior tudo se perdeu, consumido pelo
fogo ou danificado pelo combustível do avião que se espalhou pelas casas
junto com a água jogada pelos bombeiros.
Móveis, eletrodomésticos, eletroeletrônicos, roupas, documentos,
fotografias, meu computador repleto de conteúdo do meu trabalho e
objetos pessoais que não se pode mensurar valor, foram perdidos.
Contratamos uma empresa de engenharia para fazer um laudo condizente com
a real situação dos imóveis e saímos atrás de cotar os valores dos bens
perdidos. Porém, não foram levados em conta pela seguradora.
Foram
dias estressantes. Reuniões no flat e na sede da Unibanco Seguros
buscavam nos vencer pelo cansaço. Meu pai, não suportando mais essa
situação, assinou um recibo aceitando um valor muito abaixo do que era
necessário para a reconstrução das casas e compra dos bens. Então, fomos
vitimados novamente.
A obra
começou porque tínhamos algum dinheiro em poupança para complementar a
quantia paga.
Ao
assinar esse recibo, logo passamos a sofrer pressões para deixar o flat.
Deram-nos dinheiro para três meses de aluguel e pediram para que
saíssemos. Como não há imóveis facilmente sendo alugados por período tão
curto, houve demora em localizar algum. Éramos questionados todos os
dias do porquê de não termos deixado o flat ainda.
É
interessante lembrar a declaração do então vice-presidente
Administrativo e Financeiro da TAM, Daniel Mandeli Martim:
“As despesas de
hospedagem serão pagas até que a TAM indenize todas as vítimas.”
Sendo
assim, eu estaria hospedado no Golden Flat até hoje.
O RELATÓRIO DA AERONÁUTICA E
A QUESTÃO DAS INDENIZAÇÕES
Mas
afinal, qual o conceito de indenização para essas pessoas?
No
direito civil a rubrica indenização quer dizer reparação financeira por
perda patrimonial provocada por outrem; reparação financeira por dano,
material ou moral, causado pela prática de ato ilícito.
O ilícito foi provado na Justiça no
Relatório da Aeronáutica sobre as causas do acidente. Aliás, esse
relatório e a demora para sua conclusão é um caso a ser tratado a parte.
Das conclusões do
Relatório:
x. Doutrinariamente,
qualquer ação de uma tripulação, frente a qualquer anormalidade, no
ambiente da cabine de comandos de vôo, abaixo de 400 Ft, é não
recomendável; (estavam bem abaixo)
y. Estatisticamente,
as tomadas de decisão abaixo dessa altura, via de regra, agravam as
circunstâncias da situação de perigo, aumentando o risco;
Fatores
Contribuintes (para o acidente)
c. Fator operacional
(1). Pouca
experiência na aeronave
A pouca experiência
do co-piloto contribuiu para uma limitação de informações e auxílios ao
comandante. Este possuía 230:00 horas totais de vôo neste modelo de
aeronave.
(2). Deficiente
aplicação de comando
Por três vezes a
manete de potência do motor 2 recuou e foi avançada. Essas intervenções
naquela manete provocaram a redução da manete de potência do motor
esquerdo, prejudicando o desempenho da aeronave. O não retorno da manete
esquerda de imediato para a potência de decolagem e a demora de mais
quatro segundos em alcançar tal potência, contribuíram para deteriorar
ainda mais a capacidade de subida da aeronave.
(3). Deficiente
julgamento
O desconhecimento
por parte dos tripulantes, por insuficiência de avisos e de informações
sobre a anormalidade, foi determinada para que eles abandonassem a
sequência normal de procedimentos, tais como recolhimento do trem de
pouso e acionamento do Auto-Pilot, para tomar as iniciativas de
priorizar a solução de uma situação inusitada, instalada na cabine de
comando, abaixo da altitude de segurança e que acabou por levar à perda
de controle da aeronave, não sendo possível também determinar qual deles
tomou a iniciativa o que indetermina esse aspecto.
d. Outros aspectos
2). Tomada de ação
abaixo de 400 Ft
Doutrinariamente,
qualquer ação de uma tripulação, frente a qualquer anormalidade, no
ambiente da cabine de comandos de vôo, abaixo de 400 Ft, é não
recomendável.
A tripulação tentou
gerenciar o controle da aeronave, abaixo de 400 Ft, em virtude da grande
perda de energia - baixa velocidade e razão de subida para o
prosseguimento da subida - acentuado ângulo de ataque.
A tripulação
priorizou a necessidade de potência - "full power" - em ambos os
motores, em detrimento da realização do "cheque" após a decolagem.
(3). Ação inadequada
frente a pane não prevista
Baseado nos dados
colhidos no SSFDR, dos parâmetros de Fuel Flow e EPR, a manete do motor
nº 2 foi levada para a posição de máxima potência, após o travamento da
referida manete na posição "IDLE".
Este travamento
ocorreu imediatamente após o Lift-Off, quando a manete recuou sozinha
para a posição "IDLE", ficando travada por cerca de 03 (três) segundos.
Contudo, o próprio sistema liberou a manete, induzindo o co-piloto a
levá-la para a posição de máxima potência, mesmo depois de ter informado
ao comandante sobre o seu travamento.
Cabe ressaltar que o
comandante não solicitou tal ação depois de ter sido informado do
travamento, bem como o co-piloto não questiona se tal ação deveria ser
tomada ou não.
O avião não forneceu
meios para que ambos os pilotos pudessem imaginar o quão inoportuno se
tornaria essa atitude naquele momento tão crítico do vôo.
No caso da ação não
ter sido realizada pelo co-piloto, a suspeita recai no comandante,
induzido pelas mesmas razões apresentadas anteriormente.
Essas foram as
irregularidades constatados pelo Relatório sobre o acidente, onde consta
a recomendação para que a TAM, entre outras coisas, deve:
c. Deverá dar uma
maior ênfase aos treinamentos realizados nos simuladores de vôo com
relação à abertura do reverso nas diversas fases do vôo.
d. Deverá, nos
treinamentos iniciais e de revalidações, enfatizar a importância da
não-tomada de ação abaixo dos 400 pés.
e. Deverá ser
incluído no treinamento teórico e no simulador, procedimento para o caso
de retardo não comandado de uma das manetes de potência durante as fases
de decolagem e subida.
f. Deverá
incrementar o treinamento de CRM (Cockpit Resource Management) para
todos os tripulantes da empresa. Observar a circular 227-AN-136 da OACI,
Human Factors Digest nº 3.
g. Apesar de não ter
influenciado para a ocorrência do acidente, verificou-se que algumas
vezes a escala de tripulantes saía com a jornada de trabalho acima do
que é permitido. A empresa deverá confeccionar as escalas de vôo de
todos os tripulantes seguindo o que prevê a lei 7.183, de 5 de abril de
1984.
h. O diretor de
operações da referida empresa, deverá enfatizar para o pessoal do grupo
de vôo (pilotos e co-piloto) quanto a obrigatoriedade da leitura do
check-list, conforme o previsto no manual de operações.
Comentando o
Relatório:
O prazo estabelecido para a entrega
era de 90 dias. O Relatório demorou 406 dias para ser concluído. Houve
vários adiamentos no prazo. Chegou a ser pedido ao STJ que determinasse
ao Ministério da Aeronáutica a entrega de pelo menos um relatório
preliminar.
A
Comissão que elaborou o Relatório teve 11 membros integrantes, 11 deles
pertencentes a empresas envolvidas.
Falhas
gritantes na elaboração do Relatório:
-
- afirma
que o fabricante do avião informou por carta que não era necessário
treinar os pilotos quanto ao reverso. Falso: carta da Fokker pede o
treinamento.
-
- afirma
que o piloto que fez o vôo anterior com a aeronave não relatou
nenhuma ocorrência à tripulação do vôo 402. Falso: o piloto Armando
Luís Barbosa trouxe o avião de Caxias (RS) a São Paulo. Na
investigação da Aeronáutica, ele disse que alertou o piloto que se
acidentou de que havia falha no ATS, um sistema de aceleração
automática da aeronave.
-
-
Não havia
representante das vítimas. Nem seria necessário dizer, mas vá lá: a
TAM foi inocentada. Porém a Justiça não entendeu assim e a condenou
em todos os processos a que foi submetida.
E
completando a explicação à direção da TAM e a da Unibanco Seguros sobre
o que significa indenização, cito alguns sinônimos facilmente
encontrados em nossos dicionários:
“compensação,
emenda, recompensa, remuneração, reparação, ressarcimento, restituição,
satisfação.”
Pouquíssimas famílias formalizaram acordo com a TAM dando o
caso por encerrado. A maioria buscou na Justiça, brasileira ou
americana, a reparação de suas perdas e os danos morais sofridos.
A TAM e a UNIBANCO Seguros contrariando o que seus
presidentes declaram publicamente um dia após o acidente, não aceitaram
as decisões da justiça, interpondo infindáveis recursos apenas para
ganhar tempo e prejudicar as vítimas.
Suas argumentações de defesa não obtiveram êxito. Ficou
comprovada a culpa da empresa aérea e sua obrigação como prestadora de
serviços em arcar com as despesas oriundas dos danos por ela provocados,
seja aos seus clientes, seja a terceiros que foram prejudicados pela
ação da empresa.
Não posso deixar de citar o que considero uma pérola dos
defensores da empresa: consta nos autos do processo que, em sua defesa,
a TAM alegou que não tinha intenção de causar o acidente. Que ótimo!
Deveriam afixar nos balcões de venda de passagem um cartaz informando
aos clientes: “Voe pela TAM, uma empresa que não tem intenção em
derrubar aviões.”
Tirando alguns terroristas mais ousados, não conheço ninguém
que tenha essa intenção. Em suma, uma declaração inútil, despropositada,
desnecessária.
Ao longo destes dez anos algumas ações foram pagas – aqui ou
no exterior – acordos foram fechados, mas sempre em valores inferiores
ao pleiteado e alguns casos, como o de minha família, ainda tramitam nos
tribunais, a despeito de termos aberto mão de grande parte do que
conseguimos nos julgamentos já ocorridos.
Irrita o fato de que quando questionada pela imprensa, a TAM
declara que nos pagou a indenização um mês após o acidente. Então qual a
razão de existir um processo em aberto? A empresa deveria ter ganho a
causa na primeira instância baseada nessa alegação. Eu, minha família e
outras que ainda nada recebemos são mentirosas? Até quando essa empresa
em parceria com a Unibanco Seguros continuará nos vitimando com o seu
Fokker 100 “number one”?
JORGE TADEU DA SILVA
JORNALISTA |